Tranquei a porta.
Queria me certificar que ninguém entraria ali, naquele quarto bagunçado, desarrumado, na minha confusão. Minhas roupas estavam jogadas para todos os lados, os sapatos com seus pares desencontrados e folhas de papel jogadas pelo chão.
Era naquela bagunça que eu podia ser quem eu quisesse... Era ali, o único lugar do mundo, que eu conseguia me encontrar.
Muitos batiam na porta, mas eu ignorava. Nunca gostei muito de visitas surpresas. Alguns falavam coisas como "vem ver o que eu trouxe para você"... Como se a minha curiosidade fosse maior que a minha vontade de ser só.
Acho que era isso: Eu gostava da Solidão. Me acostumei com esse mundo que criei onde a porta está trancada e com uma plaquinha de "não perturbe" pendurada. Assim, afasto as pessoas sem nem mesmo precisar dizer "Adeus". Graças a Deus. Nunca gostei de despedidas, nunca soube o que dizer e como dizer... E depois de ter que dizer tantos "Adeus", comecei a evitar os "Olás".
Alguém bateu na porta... Era a Solidão. Fingi que não ouvi e ela mesmo assim disse que se eu deixasse-a entrar, ela nunca mais sairia. Deixei-a entrar.
Eu sabia que a Solidão nunca me abandonaria naquela bagunça, então pedi para ela sentar ao meu lado e ouvir as milhares de histórias que eu tinha a contar... Viramos amigas. Ela estava comigo e eu com ela. Ela até me disse que todos que ela já visitou mandaram-a embora, e me questionou por que eu deixei-a ficar. Suspirei. Não sabia se devia contar. Ela insistiu. Peguei na mão dela e mostrei toda a bagunça que nos rodeava... Expliquei que a ultima vez que deixei alguém entrar, esse alguém fez essa bagunça e foi embora sem ao menos perguntar se eu queria ajuda para arrumar.... E quando a porta bateu e ela disse que era a Solidão, eu sabia que ela nunca me deixaria.
Dias se passaram e Solidão continuava comigo... Todas as vezes que alguém batia na porta, dava pra ver em seus olhos e em seu sorriso que ela não estava feliz vivendo ali. Um dia, acordei e Solidão estava com as malas arrumadas... Perguntei para onde ela pensava que ia e ela respondeu que a Solidão não existe sem a Tristeza e que não permitiria que a Tristeza entrasse ali (segundo ela, eu não merecia).
Antes de sair, olhou em meus olhos e disse que era minha amiga o suficiente para me dar um conselho antes de partir: "Esqueça aquele alguém que fez essa bagunça, arrume-a para que outro alguém possa entrar.". Me deu um abraço e disse que se eu seguisse o conselho que ela me deu, eu nunca mais ia querer que a Solidão entrasse no meu quarto.

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